UMA OPINIÃO CRISTÃ

13/12/2016

Fazendo uma análise dos argumentos pró-aborto e anti-aborto, sob uma perspectiva teológica e filosófica cristã, acredito ser necessário pontuar algumas coisas. Primeiro, acredito que nenhum ser humano é a favor do aborto pelo que ele é em si mesmo – e isso vale também para aqueles que se posicionam pró-aborto. Sabemos, em sã consciência, que o aborto é algo horrível e mexe com o corpo da mulher de uma forma invasiva, destrutiva e inalterável. Contudo, conheço pessoas, inclusive irmãs na fé, que abortaram não porque sentiram prazer nisso ou acharam o ato moralmente correto. Definitivamente não. Na realidade elas simplesmente não viram outra alternativa no momento. Por isso, e antes de qualquer coisa, precisamos tratar do assunto não apenas com ideias e teorias, mas também com misericórdia e humanidade.

Consideremos, pois em segundo lugar, que teologicamente a vida começa muito antes da fecundação e concepção (espermatozoide + óvulo). Não negamos este fato, mas cremos que antes mesmo de Deus criar a primeira gota dos oceanos ou a primeira partícula de poeira da terra, ele já tinha nos planejado, pensava em nós e nos amava mesmo antes de nascermos. Portanto, nossa vida não começa apenas na concepção natural, mas numa “concepção divinal”, já que Deus nos idealizou muito antes de nós mesmos termos noção disso (Salmo 139.14-16).

Na narrativa bíblica a criança no ventre da mãe já tem uma personalidade. O profeta Jeremias foi escolhido por Deus para sua função antes de sair do ventre de sua mãe (Jeremias 1.5). Também João Batista foi um homem cheio do Espírito Santo desde o ventre de sua mãe (Lucas 1.15). E o próprio Jesus, nosso Salvador, foi designado para nascer milhares de anos antes do seu próprio nascimento (Gênesis 3.15).

Portanto, afirmamos que o aborto provocado (sem risco à mãe, não sendo em caso de estupro ou anencefalia) é uma forma ilegítima de lidar com a vida humana. Qualquer ação que tenha por objetivo por fim à vida de seres humanos sem razões justas é um crime duplo. De um lado, porque é uma forma de usurpar o posto insubstituível do Autor da vida, por outro, viola o ser humano, portador da imagem de Deus, de poder desfrutar a vida.

Desta forma, a ideia de que uma vida de três meses ainda “não é vida humana” nada mais é que uma cultura de morte travestida de ciência; é, na verdade, uma pseudociência. Não adianta arrazoar: “a vida ainda não se transformou em vida humana” para minimizar a culpa da sociedade. Podemos fugir da culpa de um tribunal, mas jamais conseguiremos afugentar o tribunal da própria consciência.

Em terceiro lugar, parece-me que os dados levantados pró-aborto são realmente exagerados e questionáveis. De fato, os grandes financiadores das pesquisas sobre o aborto (IPPF e IPAS) são, na realidade, os seus maiores propagadores. Na década de 1970, nos Estados Unidos, esta estratégia de elevar os números de abortos foi arbitrariamente uma forma alarmista de sensibilizar a opinião pública em prol da descriminalização – e deu certo. De lá pra cá, o aborto cresceu naquele país mais de 325%. Isso deve nos servir de lição para não recebermos quaisquer dados sem antes verificarmos as fontes e a metodologia de pesquisa.

Por outro lado, isso não elimina o fato de que mulheres, ainda que sejam apenas 68 por ano, continuam morrendo por causa de metodologias inseguras de abortamento. Qual seria a melhor opção para o bem estar social das mulheres em idade fértil de nosso país?

Em quarto lugar, na minha opinião a melhor alternativa não seria descriminalizar o aborto, pois a probabilidade que ele se torne mais um instrumento de contracepção banalizado é evidente. Some-se a isso o fato que o número de abortos concentra-se majoritariamente entre adolescentes e jovens. Descriminalizar o aborto fará com que isso diminua? Seria como imaginar alguém que deseja fazer algo proibido desistir do seu desejo ao saber que aquilo não é mais proibido. Abrir as portas é um convite de entrada, não de saída.

Ao invés de atacar os sintomas, o Estado poderia ser mais ativo na autuação de clínicas abortivas clandestinas, promover campanhas sobre educação sexual, valorização do corpo, aconselhamento e planejamento familiar, dar acesso rápido e qualitativo no período do pré-natal e no parto, especialmente para as famílias mais pobres. Poucos irão discordar que a esmagadora maioria de mortes maternas no Brasil não ocorrem por causa de aborto, mas por falta de eficiência do sistema público de saúde.

Quinto, argumentar que “é necessário descriminalizar o aborto porque as mulheres vão continuar abortando” é uma lógica falaciosa. Guardadas as devidas proporções, seria a mesma coisa que dizer: “Devemos liberar os homicídios porque não adianta proibi-los, eles continuarão acontecendo”. O que é moralmente errado deve continuar sendo um erro independente da sua adesão incontrolável.

Finalmente, por uma questão de misericórdia para com as mulheres vítimas de estupro e em caso de risco à vida da mãe, creio ser mais justo a permanência da lei do jeito que está, com as exceções já estabelecidas. Escolher abortar em caso de estupro certamente não seria o que eu aconselharia aos membros da minha igreja, pois cremos no poder de Deus e na sua graça restauradora, mas obviamente nenhuma mulher violada sexualmente é obrigada a ser cristã ou seguir os princípios bíblicos.

Não há dúvidas que escolas, ONG’s e igrejas podem ser um instrumento relevante na vida de muitos de nossos adolescentes e jovens na direção de instrui-los a viver uma vida sexual mais saudável, segura e menos descartável. No meu caso, como pastor protestante, vejo como a falta de valores sólidos em relação ao sexo e a família compromete radicalmente as escolhas e sonhos dos jovens. Se os seres humanos valorizassem o sexo, a família e os relacionamentos da forma como Deus idealizou na sua Palavra, nem precisaríamos discutir sobre aborto, mas, infelizmente, quando não sabemos para onde ir, quaisquer caminhos servem, especialmente os mais destrutivos.

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